
Metades. As duas faces da mesma guerra.
Todos os dias acordo e a primeira coisa que penso é numa história que aconteceu em um dos meus sonhos. Uma história real, que por algum motivo presenciei pela janela da alma. Como um expectador vi tudo acontecer e não consiguirei dormir enquanto essa história não for repassada. Essa é a história de um homem de valores e principios inegáveis, de um coração de leão que foi colocado no meio de um evento histórico por acaso.
Metade Palestino, Metade Israelense.
Não lembro como e nem porque, mas de repente me vi em um lugar longinquo. Não sabia como tinha chegado ali. Estava escuro, e tateando pelo local vi que estava em um quarto fechado. Não tinha portas, só tinha uma janela fechada. Ouvi um homem chorando, tentei contato até perceber que ele não me escutava, que ele não percebia minha presença. Eu era o expectador da vida dele. E por algum espaço de tempo que pareceu eterno, vi e vivi com ele sua vida.
Enquanto ele chorava, peguei um diário no chão, riscado com um lápis fraco, como se as letras estivessem desaparecendo do papel. Cada lágrima que escorria da face daquele jovem, as letras iam se apagando. Decidi forçar a visão e começar a ler, segue o transcrito:
“O que fazer”
Estou preso aqui. Depois de muito batalhar, me colocaram neste lugar. Estou desaparecendo e a única coisa que tenho comigo é esse lápis e esse diário.
Para quem não me conhece, sempre fui um garoto espetacular, cheio de idéias e vivo. Tentei sempre procurar amar muito as pessoas, aprender muito. Fui crescendo e de repente descobri algo que mudou minha vida.
Estava morando no meio da divisa entre Israel e Palestina. Quando dormia, o norte da minha cama era Israel e o sul Palestina. Não mais curioso que isso, sou de origem “Israelo-Palestina”. Quando nasci fui registrado nos dois lugares. Meus descendentes são todos assim. Descobri isso após muito procurar por minha vida. Pois não lembro do meu passado, não lembro minhas origens. A única coisa que sei é que vivo aqui e sou isso um misto desses dois mundos.
Quando a guerra começou as pessoas rodearam a minha casa para que eu tomasse um lado. Para que eu pudesse seguir minha vida, pois ninguém conseguiria viver sendo amigo e inimigo ao mesmo tempo. Tentei posicionar-me de um lado, ou de outro. Mas eu era um ser a parte daquela guerra. Eu amava os dois lados. Eu era a origem e o fim. A guerra e a paz.
Levantei uma bandeira de Paz dentro da minha fronteira. Procurei aliados para que os mundos vivessem em paz. Consegui alguns por pouco tempo. Geralmente algum lado matava alguém próximo e essa pessoa não tinha mais porque lutar comigo. As pessoas me respeitavam e me cobravam. Eu tinha que tomar uma decisão, mas qual decisão tomar? Não é possível a um ser humano ser 1 só, metade a metade? Para eles não.
E passei cada vez mais a tentar, desesperadamente, a conversar com ambos os lados. Tentava apontar os erros e acertos de cada lado. Tinha idéias que foram executadas em minha mente por horas a fio. Quando elas eram colocadas em prática, tive os melhores momentos da minha vida, acreditava que iria dar certo. Até algum lado romper o elo novamente e toda guerra ser reiniciada.
Comecei a me sentir desgostoso. Li nos livros que não era possível servir a dois senhores ao mesmo tempo. Mas eu era duas pessoas, eu estava dividido. O que eu poderia fazer? O que?
E a cada morte de alguém inocente de um dos lados, morria alguém dentro de mim. Não conseguia mais sorrir. Enquanto os dois povos lutavam entre si, eles estavam me matando também. Meus próximos estavam me destruindo também. E quando um POVO cantava a vitória momentanea. Eles também não sabiam que um deles também morrera.
E isso foi gerando um ciclo vicioso de desastres. E eu não tinha mais o que fazer, estava a parte. Foi quando as portas de minha casa foram seladas de ambos os lados. Para que eu não saísse. Colocaram cercas em minhas janelas e só deixaram uma onde eu podia ver os dois lados. E todos os dias passava olhando por aquela janela. Vendo tudo se ruir, se destruir sem poder fazer nada. Será que esse amor que tenho dentro de mim só eu tenho? Será que realmente não é possível fazer nada?
Vi muitos erros, vi pessoas tentando a paz e também sendo destruidas. Vi minha vida se indo. Até que minhas forças que já não eram muitas começaram a se esgotar. Estava fraco para ficar em pé, eram muitas as dores de ambos os lados de meu corpo. Só conseguia escutar a guerra do outro lado.
Aos poucos o amor de meu corpo foi saindo em formas de gotas por meus olhos. Eu era a prova viva que era possível conviver com os dois lados. Afinal eu era os dois lados. Meus olhos de origem distantes, olhavam sempre para a mesma direção. Minhas mãos conviviam em paz, meus pés sempre se aqueceram juntos. Meu coração que ficava no lado palestino nunca teve problema com meu pulmão direito. Tudo em mim vivia em paz. Eu era o modelo de paz. Eu mostrei que era possível. Mas um só não livra um mundo. Não existe martir, não existe um solucionador.
E aos poucos outros sentimentos começaram a se juntar ao amor na estrada para fora do meu ser. Me tornei apático, me tornei um ser sem identidade. E nunca mais parei de chorar. E tenho a certeza de que quando o último sentimento sair cairei aqui sózinho nesta guerra e meu epitáfio será:
Metade se foi. Metade ficou. Todos perderam. Eu perdi o que era inteiro. Hoje sou, fragmentos de um mundo que não conseguiu se tornar a realidade. Nada justifica a violência. Nem a negligencia. O amor morreu comigo. A metade que sobrou foi a amargura.
E é isso tudo que tenho a dizer.
FIM”
E quando terminei de ler, o despertador tocou. Jamais saberei o que aconteceu com aquele homem. Mas a história fica comigo, e começo a pensar se todo mundo também não é:
Um pouco palestino, um pouco Israelense.
Paulo Câmara, dedicado a esta pessoa. Que jamais saberá que alguém lhe ouviu.